O sapateado é uma invenção que faz sentido ter brotado em solo norte-americano, terra de profusa mesclagem de culturas. Ainda hoje, não há ninguém que goste mais de sapateado do que os próprios norte-americanos. É lá que tudo o que de mais importante se passa continua a acontecer e é para lá que os incondicionais vão quando se trata de aprender ou de reciclar.
O sapateado nasceu do cruzamento dos ritmos africanos e daqueles da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Foi dessa joint-venture tipicamente norte-americana que surgiram e evoluiram o ragtime, o jazz, o swing, o bebop, e, com eles, o sapateado. Depois nasceu o espírito da coisa, esse sim genuinamente norte-americano, filho da Era da Máquina. Mais tarde, com o virar do século, chegaram os carros, os aviões e o rádio aos quais se deve a verdadeira unificação da América, tal como hoje a conhecemos.
Quando a Segunda Grande Guerra acabou, a América inaugurou aquilo a que Scott Fitzgerald chamou em palavras de difícil tradução, a maior e mais faustosa Era do divertimento e da opulência dos sentidos. Esta Era não foi propriamente espontânea, uma vez que em 1916 a Broadway tinha já mais de três dúzias de espectáculos em cena, 90% dos quais eram comédias, farsas e musicais. Os tap dancers eram já na altura as grandes estrelas de quase todos os shows.
Em meados de vinte, os americanos haviam esquecido a recessão e desataram a gastar dinheiro, entusiasmo e energia. Foram os tempos loucos do espectáculo nonstop, conduzido por uma juventude ousada e muito irrequieta. Eram estes jovens desenfreados que imitavam as estrelas de Hollywood e da Broadway. E foi nesta atmosfera que se instalou a Idade do Jazz e com ela o jazz style, a jazz poetry e o jazz dance, mais conhecido por tap dance.
E foi assim que nas primeiras décadas do século o sapateado se afirmou como uma arte Maior, profusamente divulgada pelo país inteiro. Tempos mais tarde o sapateado chegava a locais tão diversos como a antiga União Soviética, Japão, Cuba, Austrália e, last but not the least, Portugal.
Ao longo dos anos vinte e trinta o Harlem foi a mais próspera comunidade negra dos Estados Unidos, caracterizada por uma população cheia de esperança no futuro, força de viver, muita Art Déco e,
sobretudo, jazz de manhã à noite. Às sextas-feiras, viam-se mulheres fabulosas emparelhadas por homens igualmente bem-parecidos que as levavam ao Cotton Club, o clube mais quente das noites de então - algures entre 1923 e 1936.
Se se era branco, era lá que se devia ir. Se se era preto, aquele era o show em que se devia entrar. E ninguém se importava que o clube pertencesse a um bando de gangsters da pior estirpe, nem mesmo as elites de Nova Iorque, que para lá se precipitavam ao cair da noite, em busca do exotismo e criatividade ímpar dos shows e da atmosfera do local.
Por lá passaram as orquestras de Duke Ellington e Cab Calloway e os mais famosos tap dancers, caso dos Four Step Brothers, dos Berry Brothers ou dos Nicholas Brothers, estes últimos verdadeiro fenómeno de virtuosismo no sapateado, que entre 1932 e 1939 - ano em que o Cotton Club fechou as suas portas - levaram os seus fans ao êxtase.
Nos finais da década de vinte os musicais estavam mais do que nunca na berra e foi assim que as vedetas da Broadway se mudaram de armas e bagagens para Hollywood. Fred Astaire não foi excepção e foi assim que um dia, esta estrela da comédia musical decidiu deixar para trás a sua carreira nos palcos da Broadway para ir para Hollywood tentar a sorte no cinema.
Em 1933, Astaire foi convidado pela MGM para abrilhantar o filme "Dancing Lady" ao lado da jovem Joan Crawford. Mas foi durante as filmagens de "Flying Down to Rio", com Hermes Pan, que Fred Astaire introduziu o sapateado nos musicais de Hollywood. Hermes Pan foi assim o primeiro companheiro de Fred Astaire e aquele que com ele fez vingar um estilo absolutamente único na arte do sapateado. Mas Ginger Rogers foi para todos os efeitos a eleita de Astaire, que com ela filmou nove vezes, algumas delas ao lado de Pan.
Nos anos trinta, o impacto dos musicais de Hollywood era de tal ordem que não havia escola de dança digna do seu nome que não ensinasse a sapatear. A Gene Kelly School of Dance, em Pittsburgh, na Pensilvânia, não era excepção, com o carismático professor Gene a acalentar os sonhos hollywoodescos dos seus alunos. Gene Kelly era oriundo de uma família de dançarinos, e o terceiro de cinco irmãos, todos versados na arte da dança. Os Five Kellys fizeram aliás grande furor durante os anos vinte em Pittsburgh. Mas foi com o seu irmão Fred que Gene Kelly criou o duo dos Kelly Brothers.
Nos finais da década de trinta, Gene Kelly fez as malas e foi para a Broadway, em busca da fama que apenas Nova Iorque permitia. E em 1941 já estava em Hollywood pronto para uma das mais brilhantes carreiras na história do musical americano, carreira em que incluiu o seu irmão, que ao longo dos anos o acompanhou. É aliás a Fred Kelly que devemos a invenção do Mambo e do Cha-Cha-Cha.
Também tem um irmão, Maurice, que com ele dança fabulosamente no filme "Cotton Club" de Francis Ford Coppola.
Em 1957, Gregory e Maurice já eram conhecidos pelos "Hines Kids". Aos onze anos, Gregory Hines era já uma estrela do sapateado. Depois foi só frequentar o meio dos consagrados, com eles aprender e começar a "roubar" uns passos. Gregory Hines é hoje um fenómeno de expressão único no sapateado e um dos grandes virtuosos do sapatinho-mágico enfeitiçado.